Por Karen Mortean
A tendência materialista e hedonista
que tem violentamente invadido a mente humana nas últimas décadas também tem
feito seus assaltos aos lares das famílias pela porta de frente. É o que nos
revela um estudo recente conduzido pela empresa Symantec Corporation, no qual
sexo e pornografia são mostrados como tópicos principais entre os 10 assuntos
que crianças mais pesquisam na internet. Assustador por um lado, redundante por
outro, já que não nos é novidade o frequente uso do apelo sexual em quase todos
os meios de comunicação atualmente.
O apelo erótico que outrora era apenas
sutilmente sugerido em novelas adultas, hoje já está abertamente exposto em
canais adolescentes, pois, qualquer paixão é sempre conduzida para um fim de
intimidade sexual. O mesmo ocorre na cultura musical pop, onde seus versos mais
comuns tratam de histórias calorosas e seus refrãos de desfechos sexuais mais
incríveis ainda. Nos periódicos femininos, da pré-adolescência à idade adulta,
o assunto exclusivo são os detalhamentos pitorescos das mais incríveis
histórias de traição, sexo, quando não, orgias e mesmo sadomasoquismo e outras
bizarrices.
O fácil acesso a tais meios de
comunicação associado à quase inexistência de uma formação de virtudes e
critérios baseada na liberdade responsável aos nossos filhos, somado à
mentalidade relativista vigente, permitiu um afrouxamento moral capaz de nos
fazer aceitar o inaceitável. Passamos a crer que a classificação
erótico/pornográfico depende unicamente de um valor de juízo social meramente
consensual e subjetivo e não baseado na busca da excelência humana: “tais
juízos mudam e se ajustam aos contextos, criando fronteiras dinâmicas,
históricas, precárias e mutantes. A pornografia é em si, um fenômeno social e,
como tal, permanece em constante transformação.” (Benitez, 2009)
Esta dinâmica de ajuste contextual
gerou um abismo entre o que era a pornografia de 100 anos atrás e o que ela se
tornou atualmente. É evidente que a obscenidade não é manifestação exclusiva de
nossos tempos, sendo observada e catalogada desde o início da história da
humanidade - para os católicos, consequência de um mundo decaído pelo pecado.
Cenas sexuais foram encontradas em desenhos rupestres, em manifestações
religiosas panteístas e, milênios depois, em casas de prostituição. Em 1896, o
primeiro vídeo considerado pornográfico chamado “The May Irwin Kiss” mostra o
que seria um hoje um discreto beijo de May Irwin e John Rice.
Foi somente a partir de 1960, com a
revolução sexual, que os porn-movies passam a conter cenas mais explícitas e
audaciosas de sexo, e em 1980, nos Estados Unidos, é que os cinemas passam a
ter salas especiais somente com a finalidade pornográfica. Com o advento da
internet, transformando toda casa com computador numa sala de cinema
pornográfica em potencial, a indústria só tem feito cifras sobre cifras em
faturamento. Foi como descobrir uma mina de ouro pouco explorada: o efeito
entorpecedor da pornografia rendeu a construção de um império sem precedentes:
“a pornografia se tornou um produto comercial fabricado para ser vendido e
organizado segundo fórmulas e parâmetros comerciais, respondendo às demandas
dos consumidores e visando a maximização do rendimento em prol de vendas
maciças.” (Benitez,2009).
Os dois embaixadores da exploração
sexual (ou do mais aceitável nome de mercado adulto) mundialmente conhecidos
são Larry Flynt, criador da revista Penthouse, e Hugh Hefner, criador da
revista Playboy. O legado desses empresários da pornografia foi a introdução da
mentalidade capitalista de fomento e consumo do sexo, que geraram uma nova - se
assim podemos chamar - cadeia produtiva com números que nenhuma outra indústria
deixaria de almejar:
- Entre 1991 a 1997,
o número de novos filmes de sexo explícito lançados apresentou um aumento de 500%.
- Em 1997, a News
& World Report afirmou que o entretenimento adulto estava avaliado em
quase US$8 bilhões;
- Em 2000, 60% dos
sites visitados na Internet eram de natureza sexual;
- Em 2001, o jornal
New York Times citava uma estimativa para o negócio pornô na casa dos US$ 10
bilhões (incluindo websites, assinaturas de TV a cabo e filmes pay-per-view,
filmes pagos em serviço de hotelaria, sexo por telefone, brinquedos sexuais e
revistas pornográficas), dados fornecidos pela Forrester Research;
- Em 2001, foram
produzidos 11.000 vídeos pornográficos contra 400 filmes lançados por
Hollywood, e 70.000 websites pornográficos (New York Times, 20 de Maio de
2001, “Naked Capitalists”);
- Em 2002, foram
criados 100.000 sites adultos nos EUA e cerca de 400.000 no restante do mundo;
- Em 2004, havia
cerca de 420 milhões de websites pornográficos no mundo;
- Em 2006, a
estimativa de rendimento da indústria pornográfica era de US$ 13,3 bilhões
apenas nos EUA;
- Em 2006, a China
entra no topo da lista no rendimento do mercado pornográfico seguida pela
Coréia do Sul: US$ 27 bilhões e US$ 25 bilhões respectivamente.
Ao longo da história da pornografia é
observado que o aumento do seu consumo é proporcional ao desenvolvimento
tecnológico, a partir da revolução industrial com a velocidade das impressões,
o que era necessário meses para imprimir, passou a ser realizado em horas,
minutos. Porém, se antes era necessário sair de casa, ir até a única livraria
da cidade, para comprar uma única revista com conteúdo pornográfico, agora em
0,24 segundos estão disponíveis 174 milhões de imagens, digitando apenas a
palavra porn. Se o acesso é fácil a curiosidade também, dados fornecidos pela
empresa Topten Reviews diz: “a cada segundo 28.258 usuários de internet estão
a ver pornografia”
O problema é que a pornografia oferece
recompensas para o cérebro, sua atuação é idêntica a outros provocadores
viciosos como jogos de azar e cocaína. Seu mecanismo de ação se dá através de
um impulso de dopamina. A dopamina é um neurotransmissor e um neurorregulador,
sua função é proporcionar sensação de prazer, energia, disposição, motivação,
controle e regulação dos movimentos, está presente na expressão dos estados
afetivos, no raciocínio e na concentração. Ao acessar o conteúdo pornográfico,
no cérebro é gerado um impulso de dopamina de curta duração, num período de uma
ou duas horas a pessoa experimenta elevação do humor, alegria e sensação de bem
estar, a este evento dá-se o nome de Sistema de Recompensa Cerebral. A
curiosidade pela cena sexual, a impulsividade e a recompensa cerebral, geram um
potencial viciador, como o uso gera gratificação, a pessoa sente vontade de
passar por essa situação prazerosa novamente, tornando-se um ciclo vicioso.
O estímulo pornográfico gera impulso de
dopamina, a dopamina produz sensação de bem estar, cessando o impulso da
dopamina, sensação de ansiedade enquanto espera a próxima reposição, podendo
levar a compulsão.Da mesma maneira que o jogador e o usuário de cocaína precisam,
ao longo do tempo, aumentar a quantidade de apostas e droga (ou até trocar de
droga), para conseguir o mesmo efeito de liberação de dopamina, o usuário da
pornografia tende a necessitar cada vez mais de imagens sexuais menos
ordinárias (aceitando inclusive a pedofilia), para promover o mesmo efeito
anterior.
Vários sintomas são observados no
viciado em pornografia dentre eles:
- Diminuição da produtividade no
trabalho, nos estudos.
- O usuário não consegue deixar de
visitar pornografia no trabalho;
- Passam muitas horas por dia
acessando conteúdo pornográfico e/ou em chats de cybersexo;
- Comportamento sexual promíscuo;
- Exibicionismo
- Compulsão masturbatória
- Troca de sexo real por virtual;
- Cadastra-se em sites pornográficos
pagos, gerando gastos incontroláveis.
Como a droga, a decisão inicial de
acessar a pornografia é voluntária, mas seu uso crônico pode precipitar
mudanças cerebrais que comprometem os sistemas de recompensa, motivação e mesmo
o livre-arbítrio. Como acontece com qualquer vício é muito difícil por razões
neuroquímicas, para um viciado parar de fazer as coisas, não se trata somente
de nulidade moral, e sim de desespero e ansiedade para conseguir obter a
próxima dose de dopamina.
Num mundo gravemente viciado,
compreender o potencial poderosamente viciador do uso da pornografia e a sua
indústria se faz necessário, o erotismo e a pornografia estão dispostos 24
horas por dia no conforto dos lares. Ferindo as famílias, usando as pessoas,
maltratando quem vê e quem faz. Na segunda parte do texto, na próxima edição,
será tratada a questão moral, os danos no matrimônio e os meios para evitar.
Referências
Bibliográficas
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1981/documents/hf_jp-ii_aud_19810429_po.html
www.familysafemedia.com/pornography
www.discernement.com/fichs/10141.pdf
http://internet-filter-review.toptenreviews.com/internet-pornography-statistics.html)
http://pt.scribd.com/doc/35411982/BASTIDORES-E-CENARIOS-DO-PORNO-BRASILEIRO
HUNT, Lynn. 1999. A Invenção da
pornografia. São Paulo: Editora Hedra.
DIAZ, Benítez, María Elvira .Nas redes
do sexo: Bastidores e cenários do pornô brasileiro/ María ElviraDíaz Benítez.
Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional/PPGAS, 2009
SAIDE, O. & MELLO, L. TDAH e
Transtorno do uso de substância
American Psychiatric Association 2009, Annual Meeting: Abstract NR2-042.
Presented May 18, 2009.
“Onde há pornografia, não há
liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e alguém sofrendo para produzir o
dinheiro que este outro está ganhando. Quem se vê submetido à cena
pornográfica, sempre sofre, mesmo apesar de seus possíveis comprometimentos
subjetivos a tal submissão. O comprometimento eventual de alguns de nós, não
legitima o ato agressivo de quem propõe a pornografia”. Manifesto contra a
pornografia - Pedro Cardoso – ator.
Fonte: Rewista In Guardia - Fevereiro 2012
Fonte: Rewista In Guardia - Fevereiro 2012
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