quarta-feira, 4 de março de 2015

O Vício da Pornografia

Por Karen Mortean

A tendência materialista e hedonista que tem violentamente invadido a mente humana nas últimas décadas também tem feito seus assaltos aos lares das famílias pela porta de frente. É o que nos revela um estudo recente conduzido pela empresa Symantec Corporation, no qual sexo e pornografia são mostrados como tópi­cos principais entre os 10 assuntos que crianças mais pesquisam na internet. Assustador por um lado, redundante por outro, já que não nos é novidade o frequente uso do apelo sexual em quase todos os meios de comunicação atualmente.

O apelo erótico que outrora era apenas sutilmente sugerido em novelas adultas, hoje já está abertamente exposto em canais ado­lescentes, pois, qualquer paixão é sempre conduzida para um fim de intimidade sexual. O mesmo ocorre na cultura musical pop, onde seus versos mais comuns tratam de histórias calorosas e seus refrãos de desfechos sexuais mais incríveis ainda. Nos periódicos femininos, da pré-adolescência à idade adulta, o assunto exclu­sivo são os detalhamentos pitorescos das mais incríveis histórias de traição, sexo, quando não, orgias e mesmo sadomasoquismo e outras bizarrices.

O fácil acesso a tais meios de comunicação associado à qua­se inexistência de uma formação de virtudes e critérios baseada na liberdade responsável aos nossos filhos, somado à mentalida­de relativista vigente, permitiu um afrouxamento moral capaz de nos fazer aceitar o inaceitável. Passamos a crer que a classificação erótico/pornográfico depende unicamente de um valor de juízo so­cial meramente consensual e subjetivo e não baseado na busca da excelência humana: “tais juízos mudam e se ajustam aos con­textos, criando fronteiras dinâmicas, históricas, precárias e mutantes. A pornografia é em si, um fenômeno social e, como tal, permanece em constante transformação.” (Benitez, 2009)

Esta dinâmica de ajuste contextual gerou um abismo entre o que era a pornografia de 100 anos atrás e o que ela se tornou atualmente. É evidente que a obscenidade não é manifestação exclusiva de nossos tempos, sendo observada e catalogada desde o início da história da humanidade - para os católicos, consequência de um mundo decaí­do pelo pecado. Cenas sexuais foram encontradas em desenhos rupestres, em manifestações religiosas panteístas e, milênios depois, em casas de prostituição. Em 1896, o primeiro vídeo considerado pornográfico chamado “The May Irwin Kiss” mostra o que seria um hoje um discreto beijo de May Irwin e John Rice.

Foi somente a partir de 1960, com a revolução sexual, que os porn-movies passam a conter cenas mais explícitas e audaciosas de sexo, e em 1980, nos Estados Unidos, é que os cinemas passam a ter salas especiais somente com a finalidade pornográfica. Com o advento da internet, transformando toda casa com computador numa sala de cinema pornográfica em potencial, a indústria só tem feito cifras sobre cifras em faturamento. Foi como descobrir uma mina de ouro pouco explorada: o efeito entorpecedor da pornogra­fia rendeu a construção de um império sem precedentes: “a porno­grafia se tornou um produto comercial fabricado para ser vendido e organizado segundo fórmulas e parâmetros comerciais, respon­dendo às demandas dos consumidores e visando a maximização do rendimento em prol de vendas maciças.” (Benitez,2009).

Os dois embaixadores da exploração sexual (ou do mais acei­tável nome de mercado adulto) mundialmente conhecidos são Lar­ry Flynt, criador da revista Penthouse, e Hugh Hefner, criador da revista Playboy. O legado desses empresários da pornografia foi a introdução da mentalidade capitalista de fomento e consumo do sexo, que geraram uma nova - se assim podemos chamar - cadeia produtiva com números que nenhuma outra indústria deixaria de almejar:

- Entre 1991 a 1997, o número de novos filmes de sexo explí­cito lançados apresentou um au­mento de 500%.
- Em 1997, a News & World Report afirmou que o entreteni­mento adulto estava avaliado em quase US$8 bilhões;
- Em 2000, 60% dos sites visitados na Internet eram de natu­reza sexual;
- Em 2001, o jornal New York Times citava uma estimativa para o negócio pornô na casa dos US$ 10 bilhões (incluindo web­sites, assinaturas de TV a cabo e filmes pay-per-view, filmes pagos em serviço de hotelaria, sexo por telefone, brinquedos sexuais e revistas pornográficas), dados fornecidos pela Forrester Research;
- Em 2001, foram produzidos 11.000 vídeos pornográficos contra 400 filmes lançados por Hollywood, e 70.000 websites por­nográficos (New York Times, 20 de Maio de 2001, “Naked Capi­talists”);
- Em 2002, foram criados 100.000 sites adultos nos EUA e cerca de 400.000 no restante do mundo;
- Em 2004, havia cerca de 420 milhões de websites pornográ­ficos no mundo;
- Em 2006, a estimativa de rendimento da indústria pornográ­fica era de US$ 13,3 bilhões apenas nos EUA;
- Em 2006, a China entra no topo da lista no rendimento do mercado pornográfico seguida pela Coréia do Sul: US$ 27 bilhões e US$ 25 bilhões respectivamente.

Ao longo da história da pornografia é observado que o aumento do seu consumo é proporcional ao desenvolvimento tecnológico, a partir da revolução industrial com a velocidade das impressões, o que era necessário meses para imprimir, passou a ser realizado em horas, minutos. Porém, se antes era necessário sair de casa, ir até a única livraria da cidade, para comprar uma única revista com conteúdo pornográfico, agora em 0,24 segundos estão disponíveis 174 milhões de imagens, digitando apenas a palavra porn. Se o acesso é fácil a curiosidade também, dados fornecidos pela em­presa Topten Reviews diz: “a cada segundo 28.258 usuários de internet estão a ver pornografia”

O problema é que a pornografia oferece recompensas para o cérebro, sua atuação é idêntica a outros provocadores viciosos como jogos de azar e cocaína. Seu mecanismo de ação se dá atra­vés de um impulso de dopamina. A dopamina é um neurotransmis­sor e um neurorregulador, sua função é proporcionar sensação de prazer, energia, disposição, motivação, controle e regulação dos movimentos, está presente na expressão dos estados afetivos, no raciocínio e na concentração. Ao acessar o conteúdo pornográfico, no cérebro é gerado um impulso de dopamina de curta duração, num período de uma ou duas horas a pessoa experimenta elevação do humor, alegria e sensação de bem estar, a este evento dá-se o nome de Sistema de Recompensa Cerebral. A curiosidade pela cena sexual, a impulsividade e a recompensa cerebral, geram um potencial viciador, como o uso gera gratificação, a pessoa sente vontade de passar por essa situação prazerosa novamente, tornan­do-se um ciclo vicioso.

 O estímulo pornográfico gera impulso de dopamina, a dopamina produz sensação de bem estar, cessando o impulso da dopamina, sensação de ansiedade enquanto espera a próxima reposição, podendo levar a compulsão.Da mesma maneira que o jogador e o usuário de cocaína pre­cisam, ao longo do tempo, aumentar a quantidade de apostas e droga (ou até trocar de droga), para conseguir o mesmo efeito de liberação de dopamina, o usuário da pornografia tende a necessitar cada vez mais de imagens sexuais menos ordinárias (aceitando in­clusive a pedofilia), para promover o mesmo efeito anterior.

Vários sintomas são observados no viciado em pornografia dentre eles:
- Diminuição da produtividade no trabalho, nos estudos.
- O usuário não consegue deixar de visitar pornografia no tra­balho;
- Passam muitas horas por dia acessando conteúdo pornográfi­co e/ou em chats de cybersexo;
- Comportamento sexual promíscuo;
- Exibicionismo
- Compulsão masturbatória
- Troca de sexo real por virtual;
- Cadastra-se em sites pornográficos pagos, gerando gastos in­controláveis.

Como a droga, a decisão inicial de acessar a pornografia é vo­luntária, mas seu uso crônico pode precipitar mudanças cerebrais que comprometem os sistemas de recompensa, motivação e mes­mo o livre-arbítrio. Como acontece com qualquer vício é muito difícil por razões neuroquímicas, para um viciado parar de fazer as coisas, não se trata somente de nulidade moral, e sim de desespero e ansiedade para conseguir obter a próxima dose de dopamina.

Num mundo gravemente viciado, compreender o potencial po­derosamente viciador do uso da pornografia e a sua indústria se faz necessário, o erotismo e a pornografia estão dispostos 24 horas por dia no conforto dos lares. Ferindo as famílias, usando as pessoas, maltratando quem vê e quem faz. Na segunda parte do texto, na próxima edição, será tratada a questão moral, os danos no matri­mônio e os meios para evitar.


Referências Bibliográficas
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1981/documents/hf_jp-ii_aud_19810429_po.html
www.familysafemedia.com/pornography
www.discernement.com/fichs/10141.pdf
http://internet-filter-review.toptenreviews.com/internet-porno­graphy-statistics.html)
http://pt.scribd.com/doc/35411982/BASTIDORES-E-CENA­RIOS-DO-PORNO-BRASILEIRO
HUNT, Lynn. 1999. A Invenção da pornografia. São Paulo: Editora Hedra.
DIAZ, Benítez, María Elvira .Nas redes do sexo: Bastidores e cenários do pornô brasileiro/ María ElviraDíaz Benítez. Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional/PPGAS, 2009
SAIDE, O. & MELLO, L. TDAH e Transtorno do uso de subs­tância
American Psychiatric Association 2009, Annual Meeting: Abs­tract NR2-042. Presented May 18, 2009.

“Onde há pornografia, não há liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e alguém sofrendo para produzir o dinheiro que este outro está ganhando. Quem se vê submetido à cena pornográfica, sempre sofre, mesmo apesar de seus possíveis comprometimentos subje­tivos a tal submissão. O comprometimento eventual de alguns de nós, não legitima o ato agressivo de quem propõe a pornografia”. Manifesto contra a pornografia - Pedro Cardoso – ator

Fonte: Rewista In Guardia - Fevereiro 2012

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